domingo, 1 de setembro de 2013

Travessia Petrópolis x Teresópolis x Petrópolis


   O Parque Nacional Serra dos Órgãos é uma unidade de Conservação situada no maciço da Serra dos órgãos, abrangendo os municípios de Guapimirim, Magé, Petrópolis e Teresópolis, com uma área de 20.030 ha. É aberto para visitação permanente sendo administrado pelo Instituto Chico Mendes de conservação da Biodiversidade (ICMBio). Normalmente de maio a setembro é aberta a temporada de montanhismo, com aventureiros de toda a parte, buscando o contato direto com a natureza. O principal roteiro é a Travessia Petrópolis x Teresópolis, que exige três dias e é considerada a caminhada mais bonita do Brasil. Seu nome deriva da semelhança dos picos com os tubos de órgãos de igreja, derivando daí seu nome Serra dos Órgãos.                                                                                                          (http://pt.wikipedia.org/wiki/Parque_Nacional_da_Serra_dos_%C3%93rg%C3%A3os)
   
   O meu primeiro contato com o PARNASO (Parque Nacional Serra dos Órgãos), veio em 2008 quando eu e mais um grupo de 15 pessoas fizemos a Travessia Petrópolis x Teresópolis em dois dias de muito aperto e cansaço. Ano seguinte, fui algumas vezes para a Pera do Sino com diversos amigos. Em 2012, voltei para tentar a travessia em menos de 12h com Alexandre Mendes e Ulisses Alves, sem êxito devido ao mal tempo, entramos no Portal do Hércules. Dois meses depois retornamos com fome de completá-la e fizemos em 7:48´da portaria de Petrópolis até a portaria de Teresópolis passando pelo Cume da Pedra do Sino. Me lembro muito bem deste momento, ao entrar no parque para iniciar esta última aventura descrita, o guarda me perguntou se íamos bater o recorde que era de 4:30´, e respondemos que não, mas um dia poderíamos tentar... isso foi em agosto de 2012, em 31 de agosto de 2013 voltei sozinho obstinado a bater esse recorde e voltar para Petrópolis, um desafio e tanto, mas eu estava muito bem preparado.
   Equipos revisados, suplementação e alimentação bem orientada pela Dra. Maria Vargas, preparado fisicamente pelo treinador Cadú Soares da Assessoria Ponto Corrido, mentalmente obcecado para este desafio, apoio logístico do meu pai e da Tia Rô que me deixaram e me buscaram na sede do parque em Petrópolis e os amigos que sempre me apoiavam. Este treino tinha como finalidade simular La Mission Serra fina 40km que será em outubro de 2013 e El Cruce 100km, em fevereiro de 2014. 
Iniciei as 7:50 este treino eletrizante pela serra, começando em um rítmo forte por ser uma subida leve e logo tive que utilizar os bastões como apoio e reforço para os membros inferiores, a todo o momento alternava trechos de trote e caminhada acelerada e foi assim pela Pedra do Queijo, Ajax, Isabeloca e Chapadão do Açú; Deste ponto até o abrigo do Açú foi em rítmo mais acelerado por ser mais plano. Primeira pausa foi realizada no abrigo, onde consegui fazer em 1:40´. Pausa para foto, suplementação, hidratação, registro de passagem e parti embalado. Passando por paisagens maravilhosas e um belíssimo dia de sol, consegui fazer todo o percurso sem falhas de orientação, sempre mantendo as montanhas a minha frente e direita. Chegando no elevador, super tranquilo, não tinha ninguém, o que mais me atrapalhou neste momento foram os bastões pois não tinha aonde colocar, tive que amarrar as alças na mão e seguir em frente.

   O sobe e desce e o sol, estavam me deixando desidratado e com fome. Na altura do dorso da baleia parei para fazer minha pausa de 5 minutos e nada mais. Encontrei diversos grupos pelo caminho, alguns voltando para o Açú e outros indo para o Sino. Passei pelo trecho do Cavalinho sem dificuldades ( sem qualquer acessório) e pausei no abrigo 4 onde deixei meu registro novamente. Lanchei, me hidratei e desci em direção a barragem, que foram 11 km direto e conclui em 5:10´.
   Uma pausa maior foi dada de 20 min para repôr a energia, bebi muita água, lavei o rosto e enchi os cantis. Conversando com o guarda, me falou que tinha um senhor que sempre fazia essa trilha em 4h...ui... mas ninguém nunca havia voltado para Petrópolis, essa foi a hora de aproveitar a motivação e voltar a subir. Só de pensar em subir os 11 km novamente até o abrigo 4 já me dava cansaço, pensei em desistir várias vezes, cansado com tanta subida, já estava andando mais do que correndo e pensando em ligar para meu e pai e pedir para me buscar em Terê, seria vergonhoso demais, eu só estava cansado. Essa briga comigo mesmo foi até o alto, pensando se eu realmente precisava fazer isso, que eu poderia me perder pois nunca tinha feito essa travessia invertida, que ia chagar de noite, que ia pegar frio mas neste momento eu encontrei um casaco no chão no meio da trilha... pensei comigo mesmo: "Pronto, frio não passo mas quem deixou este casaco? Deus me deu mais uma ajudinha além de dar um dia maravilhoso." Encontrei diversos grupos que havia passado descendo, uns me olhavam estranhamente, outros me perguntavam: Já? Pra onde vai? Por que está voltando? Ao explicar, uns me chamavam de doido, outro também me chamavam (rsrs), mas sempre me apoiavam, foi dai que ganhei forças para continuar a subida. Outra parada no abrigo 4 as 15:45 para um novo registro, o guarda ficou impressionado quando disse o que eu iria fazer mas me deu total apoio, assim como outros que estavam acampando, me chamaram de Iron man, tiraram foto comigo e me passaram muita energia positiva, foi com essa motivação que me reergui.
   A partir deste trecho, não tinha uma subida como esta mas passavam por umas 3 montanhas subindo e descendo. As 16h já havia passado pelo cavalinho descendo, onde encontrei um grupo que conversei e me ajudaram a segurar os bastões e até tirar fotos. Depois deste trecho, o caminho de volta era bem mais complicado em termos de orientação, me perdi várias vezes em diversos trechos (Morro da Luva e do Morro do Marco) cuja a vegetação era um capinzal muito fechado e como eu estava fazendo o percurso inverso, era quase impossível visualizar a trilha.. No trecho de antes do elevador até o Açú, foram momentos muito difíceis, onde precisei de muita calma para tomar decisões e ter certas atitudes. Ainda com visibilidade e o sol se pondo, todo o trecho onde conseguia enxergar a trilha e estava plano, eu corria a toda velocidade.    Um pouco antes do morro do marco, de onde já se via  a Pera do Açú, me vi completamente perdido em meio a vegetação, pensei várias vezes em fazer sinais com a lanterna e pedir ajuda, estava muito cansado, furei mato adentro a toda hora para subir em um ponto mais alto da pedra e visualizar a trilha.os bastões serviam como mais duas pernas me segurando.


   No alto do morro do marco um dos momentos mais marcantes, eu estava caminhando bem nas trilhas e era plano quando passou bem devagar e bem perto ao meu lado um helicóptero dos bombeiros, a primeira coisa que pensei foi que meu pai estava desesperado lá embaixo e tinha chamado os bombeiros pra mim,  como eu já tinha me achado, fiz o sinal que estava tudo bem e se afastaram. O sol estava quase totalmente escondido mais ainda tinha algumas brechas, os bombeiro foram me acompanhando do alto para ter a certeza de que eu não iria me perder até chegar na subida do morro da Pedra do Açú e partiram. Cheguei no abrigo ainda claro e entrei para descansar. "Escapei por pouco, papai do céu segurou o sol para mim dessa vez". Conversando com um guarda do parque e outros hóspedes, me falaram que tinha uma senhora que havia fraturado a perna na altura do Ajax e que o helicóptero veio resgatá-la. Ufa!!!!
   Quando falei que achava que o resgate era pra mim, todos riram muito, inclusive eu. Tomei um café bem quente e contávamos histórias de aventura, falava sobre minhas corridas, o motivo pelo qual eu estava fazendo aquilo e mais uma vez todos me elogiavam dizendo que fui o primeiro a fazer isso. Mais uma vez meu ego, foi lá em cima. Outros grupos chegando e a conversa foi ficando boa e não dava nenhuma vontade de continuar naquele frio e já escuro, todos impressionados com o que eu estava fazendo, na verdade eu estava demorando ali para esperar o outro guia do parque com o rádio para avisar na portaria que eu estava bem mas nada de chegar resolvi partir, vesti o "santo casaco" e parti. No início do caminho de volta encontrei com o Felipe, "o guia do rádio" e avisou para a portaria que eu estava bem e que já estava descendo, neste momento ele me deixou um pouco mais na frente,  pediu para me manter a direita quando chegasse no chapadão e se eu poderia acompanhar o grupo do menina que havia sofrido acidente para dar uma força para eles, aceitei na boa e partir para ataque e recuperar o tempo perdido...nessa altura já estava de noite e não via mais nada, resumindo, me perdi completamente... assim como todas as vezes, eu tive calma e sempre procurava voltar ao início da trilha mas resolvi voltar ao abrigo e pedir auxílio para passar pelo chapadão.
Um santo chamado Johnny, se voluntariou a me levar na boa até o início da isabeloca, onde encontramos um casal subindo tranquilamente, o guia voltou com o casal depois logicamente de uma foto no escuro para registrar o momento.(rsrs) Bem descansado e cheio de frio, pisei fundo e desci "a toda", essa era a verdadeira "night run" (rsrs). Encontrei vários grupos subindo e nada do grupo que o Felipe pediu para eu acompanhar. Bem próximo a base, achei... conversamos durante todo o tempo, eles estavam bem preocupados para onde teriam levado a mulher que se acidentou e reclamando muito do sistema de resgate do parque. Por diversas vezes paramos para o marido da mulher acidentada ligar para parentes no meio da trilha...putz... se não bastasse isso, uma outra menina estava como o joelho lesionado devido ao esforço na descida... nossa caminhada foi beeeeeeem devagar com várias paradas, como eu já estava no lucro de estar bem, de ter feito o que eu realmente fui fazer, acompanhei tranquilamente e tentei apaziguar em vários momentos, cedi meus bastões para apoio, contei algumas histórias e não pude deixar de tentar puxá-los. Ao chegar na portaria após mais de 1h acompanhando-os, a vontade de gritar era muita, mas o clima para eles não era de festas então me contive, mas por dentro...sinalizei para meu pai e para tia Rô que vibraram muito com a minha chegada, eu tinha certeza que eles estariam preocupados, na verdade eu achava que eles estariam mais nervosos...(rsrs), mas foi ótimo vê-los... aquela sensação de ter acabado, de ter conseguido depois de tudo que havia passado... foi ótimo e saber que fui o Primeiro a realizar esta travessia Petrô x Terê x Petrô, e com o tempo bruto de 13:35 ´. Valeu demais!!!